Limites da Razão Científica

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , ,

Discurso proferido na Universidade Federal do Ceará por ocasião do recebimento do título de "Doutor Honoris Causa"

Meu objetivo neste esboço de ensaio é situar algumas questões, paradoxos e encruzilhadas que o próprio desenvolvimento da ciência fez surgir na contemporaneidade. Desde Einstein, tomou-se conhecimento de que a luz não se propaga em linha reta e, tal como o som, faz astronômicas curvaturas, obrigando a repensar e relativizar não somente a Física espacial, mas também o próprio cálculo matemático.

O princípio da incerteza, de W. Heisenberg, mostra como é impossível equacionar com exatidão o estado e o movimento de um elétron em laboratório, confirmando a possibilidade de falseamento da experiência pelo modo como o experimentador se coloca na situação. Noutras palavras, não há como excluir do trabalho científico experimental a pessoa real do cientista com suas intuições, emoções ou ideias preconcebidas.

Quando Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade, o mundo estava imerso no obscurantismo paranóico da guerra. Durante muitos anos, o grande homem tentou convocar uma conferência internacional de cientistas para condenar o uso que os EUA tinham feito de suas descobertas, bombardeando Hiroshima e Nagasaki, vitimando seres humanos até os dias atuais. O boicote sistemático das potências mundiais resultou na expulsão de Einstein dos Estados Unidos como persona non grata.

Neste relato, é possível ver o cruzamento de três elementos dialeticamente indissociáveis na vida humana: a ciência, a variação histórica dos seus achados e a influência político-psicológica do sujeito humano. Nesta perspectiva, é bom lembrar que a lenda ancestral de que a terra era o casco de uma tartaruga gigante foi utilizada para explicar o planeta em que vivemos e que Galileu quase foi para a fogueira quando afirmou que a terra se movia. Esta sorte não teve Giordano Bruno. A propósito de Galileu, trago a seguinte citação de Chaui (2009, p.49): “O ´livro do mundo`, diz Galileu, está escrito em caracteres matemáticos e para lê-lo é preciso conhecer matemática”.

Destarte, o reducionismo fundamentalista em ciência é tão antigo quanto o seu oposto relativista, que sofistas, cínicos e céticos tão claramente exprimem. Isso levou a uma necessidade de iluminar o paradoxo mental com algo como as luzes de uma razão absoluta. A ideia iluminista de que todas as ilusões, mitos e delírios religiosos seriam completamente pulverizados e superados pela ciência parece ter sido posta, na atualidade, entre parênteses.

A ciência não é um Absoluto com a qual Deus e a Razão têm encontro marcado, mas uma atividade, cuja práxis exige a intuição humana para não cair na cegueira de que toda realidade é racional, como Kant já apontara no seu famoso aforismo sobre conceito e intuição. Freud asseverou que, quando o homem primitivo, em vez de jogar uma lança sobre seu adversário, atira-lhe um xingamento, cria a civilização. É possível dizer que, nesse momento, nascem o pensamento e a política, pois a ciência já estava sendo desenvolvida pela arte da guerra. Isso está de acordo com a visão psicanalítica de que o ódio precede o amor, sendo a paranóia guerreira a erupção na política desta condição na mentalidade coletiva. A extraordinária complexidade da lógica cultural moderna dominada pela mercadoria fetichizada, impulsionada pela publicidade consumista não muda esse paradigma, mas o intensifica, dando-lhe nova roupagem. Com efeito, transcrevo alguns trechos de recente pronunciamento do professor Manuel Domingos Neto diante da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, em Audiência Pública sobre Revisão do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em dia 07 de abril de 2010. Diz ele:


É conhecido o fato de que as sangrentas disputas do século XX impulsionaram os
avanços da ciência e da tecnologia. A guerra moderna chegou a ser definida como
uma competição entre cientistas e técnicos mediada pela indústria bélica e pelos
aparelhos militares. A Primeira Guerra Mundial foi apelidada de “guerra dos
químicos”, por conta do impacto causado pelos novos materiais explosivos e pelos
gases asfixiantes; a Segunda, de “guerra dos físicos” devido à produção da bomba
nuclear, cujo poder de destruição em massa foi determinante para colocar um
ponto final no conflito e firmar a hegemonia norte-americana na nova ordem
internacional que se seguiu.

E ainda:

Além disso, o aparelho militar moderno deixou de se articular em torno de
personalidades singulares, de carismáticos chefes guerreiros, e passou a contar
com quadros tecnicamente preparados para o complexo planejamento e o
acompanhamento da atividade guerreira.

E, logo em seguida: “Se tomarmos a produção do conhecimento científico como marca de civilização, não é absurdo dizer que a guerra foi determinante na construção do mundo civilizado”.

As palavras ora reproduzidas mostram que o desenvolvimento histórico-científico avança na guerra para se sedimentar na paz. A catapulta usada pelos grandes condotieri desde há milhares de anos é certamente a precursora tanto do guindaste quanto dos projéteis balísticos intercontinentais. Desta maneira, ciência e guerra caminham juntas, produzindo constante intercâmbio do uso civil com o emprego militar da tecnologia.

Portanto, assegurar que os filósofos da liberdade e da justiça estão a serviço da paz é ignorar o pressuposto histórico de que a ciência está a serviço da guerra. Por mais que romanticamente desejemos o contrário, é bom lembrar que o grande Aristóteles educou, guiou e norteou Alexandre, o Grande, cujo gênio militar nenhum historiador contesta. Se num sentido amplo admitir-se que o filosofar é o acompanhamento necessário da observação, da experimentação e da ação, pode-se dizer, pois, que Filosofia e Ciência são inseparáveis.

Destarte, quando Sócrates filosofa em busca da verdade, combatendo os sofistas que utilizam a palavra, o argumento e a retórica para justificar o útil ou o inútil, o belo ou o feio, a amizade ou a inimizade, está fazendo ciência. Igualmente quando Heráclito, antes dele, garante que não é possível se banhar duas vezes na água de um mesmo rio, e Parmênides exprime que “todo ser é e todo não ser não é”, ambos estão em campos opostos fazendo ciência. Os gregos do período clássico já prefiguram Kant, ao buscar um princípio ou fundamento para os fenômenos que a percepção humana captura, pois alguns dirão que é o fogo, outros que é a água, e Pitágoras dirá que é o número.

O gigantesco percurso, desde a ciência mais primitiva, da pedra, do ferro, do bronze, até os sofisticadíssimos equipamentos para transformações genéticas, viagens interplanetárias, manejo de células-tronco embrionárias para produção futura de qualquer tecido do corpo humano, reprodução ou clonagem laboratorial de animais e seres humanos, inclusive de pessoas mortas há milhares de anos, possibilidades inimagináveis de comunicação de toda espécie, tudo isso cria para o psiquismo humano e a mentalidade coletiva um ambiente mundial de terror e fascínio. É aterrorizante pensar que daqui a duzentos anos a família vizinha pode ser toda de indivíduos laboratorialmente produzidos ou clonados.

Assim, no plano científico, as encruzilhadas mostram-se tão extraordinárias quanto aquelas vividas na dimensão da política e do poder na práxis histórica. Aristóteles, que criou na Grécia clássica o método lógico capaz de servir de instrumento para as ciências que catalogou no Organon, e até hoje funciona como ponto de partida para a compreensão da cientificidade contemporânea, também mostrou as bases para a compreensão da relação entre Política e Ética. O livro da Ciência jamais será terminado, pois dele fazem parte capítulos que se comunicam como nas membranas osmóticas, ligando as mais variadas atividades do pensamento e da ação do homem. Se a arte e o pensamento eram atributos que Apolo dava aos homens na época homérica, pode-se garantir que o desenvolvimento científico sucede na encruzilhada de mitos e logos, subjetividade e objetividade, interior e exterior, guerra e paz.

Desde épocas imemoriáveis, quando a mítica horda inicia sua caminhada, os entrechoques bélicos também se manifestam, apoiados em mitos e tabus, constituindo a complexa relação entre interno e externo, subjetivo e objetivo. A concepção desse processo primitivo está muito bem descrita por Chuster (1999, p.37), ao assinalar que

[...] Martha Harris estabeleceu para os mitos grupais de Bion uma compreensão
circular baseada no discurso freudiano de Totem e Tabu: no início as
necessidades da horda eram preenchidas através do conhecimento dos líderes (os
pais). Este conhecimento controlava a inveja e a inimizade das hordas vizinhas.
Mas, na medida em que os líderes envelheceram, surgiram conflitos entre os
aspirantes à sucessão. Em relação à tomada do poder, duas políticas emergiram:
uma de luta e outra de fuga. Elas conviveram em equilíbrio até a morte dos
líderes. A partir daí a horda cindiu-se em busca de vizinhos mais pacíficos.
Enquanto o grupo de luta foi dizimado ou incorporado por um outro vitorioso, o
de fuga pode aguardar pelo nascimento de um novo líder (suposto básico de
acasalamento). No devido tempo apareceu um líder que foi capaz de preencher as
necessidades de proteção do grupo que se polarizou em torno dele (suposto básico
de dependência). Este líder, em primeiro lugar, estabilizou e estabeleceu
acordos com os vizinhos através de um espírito combativo que assumia a demanda
dos demais membros do grupo.

A reflexão de M. Harris levaria à ideia de consciência, razão e formulação de objetivos racionais. Assim como se verá adiante, o saber nascido da belicosidade grupal necessitará de uma Razão que o acolha. O entrecruzamento no qual apoio minha reflexão mostra a complexidade dos processos mentais, individuais e coletivos que o ánthropos utiliza para produzir artefatos de sobrevivência e luta. Quero continuar assinalando a relação fundamental entre Ciência e guerra, pois o desenvolvimento científico historicamente acontece no decurso das guerras ou é sua consequência imediata.

O cientista é o guerreiro pensante que se tranca num quarto de laboratório para desenvolver a arma mais eficaz, a fim de matar o maior número de inimigos. Portanto, quando Freud se refere ao nascimento da civilização pela contenção da agressividade destrutiva e da sexualidade sem freios, no plano consciente, não se esquece de dizer que o processo emana do plano inconsciente, tanto individual quanto grupal. Isso não sucede sem ônus, porque o preço pago pela civilização é o do mal-estar presente na sociocultura humana. A condição para viver é, portanto, aceitar uma certa dose de angústia produzida no próprio desenvolvimento individual que vai ser acrescida do mal-estar civilizacional.

O homem tenta sair desse aprisionamento dentro de si mesmo por intermédio da sua permanente reconstrução histórico-social, na qual descobre o trabalho, a indústria e a Ciência, após superar a economia predatória, durante o longo período de crescimento, no qual o mito orientava a arte e a indústria, até alcançar, na Modernidade, a racionalidade histórica da produção científica. No seu percurso histórico, o homem passa a acreditar no absoluto poder da sua Razão criadora de indústria, arte e Ciência, enquanto concomitantemente se imagina emancipado, ao se desfazer do mito que explicava o mundo pela ação dos deuses olimpianos, ingressando muito depois no período histórico do Iluminismo que o destinaria ao progresso infinito.

O homem reavia Deus, que tinha sido projetado no céu, mas criava outro mito: agora era ele o próprio Deus. Quando Nietzsche proclamava a morte de Deus, para que adviesse o super-homem, criava o ambiente intelectual e filosófico, no qual muitos dos impasses contemporâneos da humanidade irão se alojar. Certos aspectos das visões filosóficas de Heidegger e Nietzsche, combinadas, darão o suporte intelectual, no qual a Alemanha de Hitler vai fincar suas raízes. O ser transcendente de um e o super-homem de outro trarão Zoroastro de volta para que as trombetas da guerra anunciem um novo tempo. Portanto, os monarcas, macedônios e persas, como Ciro, Felipe ou Alexandre, já estão respaldados pelo grande Zaratrusta, que fala através dos seus adivinhos e místicos de um novo tempo que surgirá do apocalipse guerreiro.

A história, como dizia Marx, repete-se embora diferenciadamente no espaço e no tempo. Desse modo, a atemporalidade dos mitos pressagia a temporalidade repetitiva da historicidade. Se Homero mostrava as peripécias guerreiras de Odisseu, desde Troia até sua chegada a Ítaca, era para mostrar como tudo acontecia sob a influência direta ou indireta dos muitos deuses que determinavam o destino do homem. Os mitos, que se formam com origem em fantasias inconscientes, acontecem tanto no indivíduo quanto nos grupos e são, como as crenças, passagens necessárias para a representação, o pensamento simbólico e a linguagem. Ao contrário do que pressupõem Adorno e Horkheimer, na sua Dialética do Iluminismo, o mito não é simples passagem para o pensamento científico. Não se trata, tão-só, de um momento narcísico da humanidade que explica o mundo e suas produções pela influência das divindades olimpianas, no caso da mitologia grega, por exemplo.

O mito é algo que sempre se atualiza para que o pensamento e a linguagem sejam possíveis. Os mitos grupais emergem como construtos primitivos mais ou menos organizados, que permitem submeter os indivíduos à coletividade. Destarte, é possível dizer que sempre algo do mítico e do misterioso subsistem no interior da própria razão científica. O caminho da Ciência está diretamente articulado ao desenvolvimento da capacidade de conhecer do homem. A condição do conhecimento envolve, por seu turno, afetos de amor e ódio, bem como sentimentos de guerra e paz, no plano individual e coletivo. O conhecimento, como queria Descartes, produzido mesmo por uma razão solipsista, necessita de um “gênio maligno” por um lado e da bondade de Deus por outro, como assinalava o próprio Filósofo das Meditações.

Assim, quando Freud e Einstein trocam cartas no seu famoso diálogo Por que a Guerra?, estão tentando compreender a difícil relação entre guerra e paz, amor e ódio, destrutividade e sexualidade, razão científica e delírio passional, acaso e necessidade, ordem e desordem, barbaria e progresso. É possível que todo o pensamento histórico, filosófico e científico que os antecede possa ser subsumido nessa compreensão geral pelo menos para o objetivo de exposição descritiva do tema que abordo. Quando exprimo o argumento que o conhecimento científico é subordinado aos paroxismos bélicos da humanidade, estabeleço um limite que permite compreender, por outro lado, a necessidade pacífica de saber do homem. Esse aparente paradoxo situa a questão da própria produção do homem como ser histórico cultural capaz de comunicação pela linguagem e, concomitantemente, criatura passional afetiva que guarda vínculos com o passado animal ancestral.

Nesta perspectiva, tenciono mostrar como, antes da linguagem cultural, o homem compartilha com os animais outra linguagem, embora diferenciada. No seu artigo, o psicanalista argentino Ahumada (1997, pp.258-259), referindo-se à etóloga Jane Goodall, diz:

Meu exemplo é uma importante descoberta etológica, transcrita por Jane Goodall
de seu caderno de anotações: 4 de novembro de 1960 – Ele estava de costas para
mim. Voltou-se ligeiramente e, deliberadamente, puxou um grosso talo de grama
para si e partiu um pedaço de cerca de 45 cm de comprimento. Então,
infelizmente, deu-me novamente as costas. Após uns poucos minutos, ele escalou a
elevação (de térmites) e afastou-se. Pude identificá-lo com David Greybeard. 6
de novembro de 1960. Junto à elevação das térmites havia dois chimpanzés, ambos
machos... pude ver um pouco melhor o uso de um graveto de palha: ele o erguia na
mão esquerda, introduzia no termiteiro e o tirava coberto de térmites. Trazia
então o graveto até a boca e pegava os insetos com os lábios ao longo do graveto
começando pelo meio.


Certamente, o que a Cientista mostrava era a proximidade entre comportamento humano e animal, evidenciando aquilo que certos filósofos e também psicanalistas na atualidade pretendem obscurecer. Não há como excluir Darwin ou Lineu do longo processo de desenvolvimento e maturação da Ciência, pois isto implicaria um corte epistêmico que somente alguns atrevidos pós-modernos e neopragmáticos conseguem admitir. O objetivo de Ahumada é situar o lugar da teoria freudiana do inconsciente em relação com os racionalistas lógicos, por um lado (Galileu), os empiristas observacionais, por outro (Aristóteles), em contraste com a busca psicanalítica de evidências expostas no interjogo das relações.

Nesta exposição, situar o papel da Psicanálise é fundamental para estabelecer a correlação entre objetividade sócio-histórica e a subjetividade simbólica da razão histórica. O pensamento psicanalítico pode contribuir para um melhor entendimento dos limites que separam a razão científica das condutas humanas profundamente marcadas pelos seus mitos, vínculos afetivos e crenças religiosas ou políticas. Ahumada (1997) assevera que o saber psicanalítico não fica fora do sistema científico das evidências, mas apenas as procura por meio de uma metodologia específica. Essa metodologia encara criticamente a consciência e a razão tomadas no sentido absolutista do Iluminismo. Sua perspectiva é a de Kant, conforme Chuster (1999, p.22):

Considero que a partir de Kant três características tornam-se evidentes a ponto
de caracterizarem a modernidade: a crítica (da moral, da política, da religião
etc.), a revolução (como instrumento de mudança social, mas sobretudo como
mudança de método de pensamento), a descoberta do duplo infinito (o cósmico e o
psíquico).

Tal visão não envia ao relativismo mas à natureza do método psicanalítico, cujo objeto é sempre fugidio, porque o sentido procurado nunca é encontrado numa verdade que se esgota em si mesma. É como na descrição homérica das aparições de Proteu, em que Menelau deve agarrar cada vez que surgem diante da sua vista. As transformações em água, fogo, leão, abutre e outras precisam ser tomadas como ilusões que apontam para um caminho verdadeiro, devendo ser acolhidas e mantidas com firmeza. Por esta razão, Proteu é ao mesmo tempo visto pela mitologia como a manifestação do mágico transformista e de portador da verdade. Portanto, as evidências para as quais Ahumada aponta comportam os paradoxos que, por sua vez, indicam o caminho conducente à realidade objetiva, permitindo o agir consciente.

O seguinte trecho de Chuster (1999, p.30) ajuda ainda a se pensar o tema:

Em Transformações, Bion faz uma consulta à Matemática e à Física quântica,
deixando implícito em suas observações algumas conseqüências de pensamento
derivadas dos teoremas de Gödel, Church e Turing. De acordo com Gödel algumas
descrições matemáticas seriam sempre incompletas, alguns aspectos do mundo
sempre resistiram à descrição. O mesmo é válido para a psicanálise: algumas
descrições, ou na verdade todas elas, são sempre incompletas, pois alguns
aspectos da realidade psíquica sempre resistem à descrição.

A questão filosófica do finito e do infinito e do relativo e absoluto está sempre presente em maior ou menor grau na Filosofia e na atividade científica. Disso resulta que muitos pensadores e cientistas acreditam que não há continuidade ou evolução histórico-científica, mas períodos civilizatórios relativamente isolados. Outros, pelo contrário, admitem que tal processo sempre avança, embora de maneira contraditória, rumo a um progresso possível. A contestação desse processo tomou grande fôlego com o advento do Estruturalismo linguístico, mas também com o desencantamento contemporâneo da Filosofia decorrente, em grande parte, de uma correta avaliação da desastrosa ação do homem sobre o Planeta.

Tal atitude é tão contundente que se precipita num negativismo niilista e num relativismo absolutista, nos quais somente o heroísmo de alguns reaveria a humanidade. A crítica é aqui dirigida tanto aos pensadores pós-modernos, que decretam o fim da historicidade, quanto aos neopragmáticos baseados em Wittgenstein que, nos EUA, veem as grandes elaborações conceituais como empecilhos para novas aventuras na realidade do presente. O fato é que uns e outros substituem a universalidade pelo relativismo, enquanto os grandes construtos teóricos, como o marxismo e freudismo, são reduzidos a puras narrativas hermenêuticas. Como ensina Chaui (2009, pp.83-84),

Enfim, os filósofos ditos pós-modernos (como, por exemplo, o francês Lyotard e o norte-americano Rorty) consideram a filosofia e a ciência práticas culturais típicas do Ocidente, cuja pretensão de realizar a razão ou o conhecimento racional é infundada e irrealizável. Por quê? Porque a razão tem a pretensão de ser o conhecimento verdadeiro da realidade, mas esta não existe, pois não há fatos, dados ou coisas e sim maneiras de falar ou “jogos de linguagem” com que inventamos meios para exprimir o que pensamos e sentimos.

O mundo não seria senão um suceder de versões políticas ou científicas que a cada momento são desenvolvidas para compreendê-lo, utilizá-lo e vivê-lo. É como se entre o casco da tartaruga e a moderna teoria astrofísica não existisse nenhuma conexão histórica e científica, mas simplesmente cesuras em que cada segmento da historicidade e do conhecimento estaria separado por abismos intransponíveis. No lugar de limites que apenas estabelecem fronteiras flexíveis de passagem, instala-se o pensamento do corte epistemológico radical, que não vê nenhuma ligação entre as civilizações egípcia, grega, romana ou chinesa como caminhos para as formas atuais que o processo histórico paulatinamente assume no entrechoque de civilizações.

Os filósofos da Ilustração, que davam prosseguimento ao racionalismo cartesiano, centraram no sujeito humano a capacidade da razão para o progresso contínuo, no qual o limite da ciência era o infinito. Isso significava que a ideia clara e distinta de Descartes e o edifício das ciências de Comte podiam agora contar com o equipamento cognitivo fornecido pelos filósofos do Iluminismo, como Rousseau e Kant, para tornar a humanidade livre, o progresso ilimitado e a Ciência absoluta. Hegel já dissera que a história é a realidade e que todo real é racional, e todo racional é real. Portanto, a consciência era entronizada como capaz de ascender ao absoluto.

Neste ponto é preciso levar em conta a subjetividade histórico-social ou mentalidade coletiva na sua conjugação com a objetividade da historicidade, que acontece em tempo e espaço definidos. A crença na razão, no progresso e no ilimitado desenvolvimento da Ciência criou o ambiente propício para que Fukuyama decretasse o fim da história e Althusser o fim da Filosofia dentro dos marcos da Modernidade. A Ciência como deusa soberana tudo supriria, porque o processo histórico do capitalismo havia superado a alienação e a ideologia, sendo capaz de atender a todas as necessidades humanas. Ao mesmo tempo, a reflexão filosófica se tornava desnecessária, porque o socialismo viria pela racionalidade planificada, substituindo os entrechoques periódicos do passado. Assim, do mesmo modo que Newton é uma peça na contraditória evolução da Ciência, não é possível ignorar o fato de que o rei acádio Sargão I é parte da engrenagem histórica no seu sentido mais concreto, porquanto os condotieri guerreiros articulam Ciência, Arte, religião e guerra.

O caminho que percorro nesta exposição entrelaça o entendimento psicanalítico do inconsciente com o desenvolvimento histórico da condição humana para produzir Ciência e Arte. Admitindo-se que a elaboração científica é, inicialmente, rascunhada na argila, no papiro, no papel ou na tela do computador, ter-se-á também de aceitar o fato de pensamentos preexistentes revolutearem na sociocultura combinada ao inconsciente coletivo, permitindo ao projetista configurar seu objeto. Nesta perspectiva, o cientista de todos os tempos sempre parte do misterioso mítico que sua intuição vai organizar nos sucessivos esboços e ensaios. A crença e a imaginação têm um papel dialético na produção do conhecimento. Britton (2003) acentua que fantasias inconscientes podem adquirir o estatuto de crenças tomadas inicialmente como fatos da realidade. Portanto, antes de alcançar o sentido do verdadeiro, o pensamento necessita dessa passagem pelas imagens míticas para que o conhecimento se produza.

A ideia de limites da razão científica não deve ser compreendida como simples descrição ou esquematismo discursivo. Trata-se de compreender, partindo da complexidade do pensamento humano, o modo específico como o psiquismo se apropria da realidade externa, ensejando cultura e Ciência, num movimento dialético que igualmente cria o homem e o pensamento.

Com efeito, vou utilizar ideias derivadas da Psicanálise para entender como, partindo de componentes emocionais primitivos, o ser humano desenvolve o pensamento abstrato e científico. Isso implica uma passagem necessária pelo reino do mito e do sonho, pois ambos guardam estreita relação nesse percurso. Não há como fazer esta caminhada sem porosidade na compreensão de conceitos e formulações, seja nas ciências físico-matemáticas ou humanas, pois o fechamento criaria cesuras e aporias intransponíveis. Assim pensando, posso me permitir um ligeiro recuo mitológico para em seguida avançar na compreensão do pensamento científico.

O mito de Prometeu não deve ser lido simplesmente da perspectiva dos incidentes fabulosos que resultaram na aquisição do fogo pela Humanidade. A sua porosidade é tal que muitos outros elementos podem ser compreendidos, como o desenvolvimento da metalurgia, a aquisição de uma gramática na linguagem primitiva tanto entre Prometeu e Zeus quanto na relação cultural que Hércules, herói humano, instaura ao matar a águia que comia o fígado de Prometeu. É bom lembrar que Prometeu e seu irmão Epimeteu são filhos de um gigantesco titã que, juntamente com outros titãs, moveram uma terrível guerra contra Zeus e outros olimpianos.

Se Prometeu rouba o fogo do Olimpo para entregá-lo aos homens, sendo acorrentado na rocha por muitos anos como castigo pelo furto, Epimeteu recebe de Zeus como presente a belíssima Pandora, que traz consigo o vaso que não deve ser aberto nunca. O irmão o havia previamente avisado de que não recebesse nenhum presente de Zeus, porém Epimeteu não resistiu à beleza da boneca construída pelo deus ferreiro Hefesto e que Zeus vivificou com um sopro. Pandora, curiosa, abre o vaso que liberta todas as pestes que devastam os homens, mas, no fundo do recipiente, permanece a esperança.

O mito é um discurso em zigue-zague que fala por metáforas, obrigando a mente a buscar a solução do enigma e do mistério contidos no seu interior. Os cientistas, de certo modo, sempre lhe devotaram desprezo, atribuindo-lhe todo o obscurantismo de épocas pré-científicas, mas os psicanalistas viram neles algo muito próximo do sonho, portanto, da linguagem inconsciente. Freud declara que os mitos são os sonhos da coletividade, enquanto os sonhos são os mitos dos indivíduos.

Não me afasto do tema central que norteia este discurso, mas procuro mostrar como a aquisição do fogo articula elementos de grande complexidade, incidindo principalmente no sitio que Bion chamou a ligação entre pensamento e ideia. Nesta sequência de acontecimentos míticos, é possível observar a passagem da mentalidade inconsciente coletiva do nível divino para sua dimensão humana. Tal acontece obedecendo a sequência que Bion observou no funcionamento do inconsciente grupal. Há um roubo, uma luta, uma fuga e um castigo, e o nascimento de um herói cultural, Hércules, que salva Prometeu do seu martírio. O pai do ideal-do-ego (divino) castiga, adula, mas pune severamente a desobediência com a peste. O fogo carregado por Prometeu num talo de erva-doce representa, ao mesmo tempo, o sexo abrasado, que permite a reprodução humana e a transferência, para os homens, da forja de Hefesto que fabrica indústria, beleza e guerra. A guerra, a luta e a fuga estão situadas num nível do psiquismo esquizoparanóide, enquanto a esperança é um princípio que rege as elaborações da culpa da posição depressiva. Neste ponto, a barreira de contato entre mente, consciente e inconsciente permite a passagem para uma tomada de consciência, mediante a qual as pessoas reconstroem o que destruíram.

A civilização grega é o modelo mais extraordinário de tudo o que estou pretendendo mostrar sobre o progresso, o alcance e os limites da Ciência. Se o mito de Prometeu pode ser inscrito no inconsciente coletivo da historicidade humana, o mito de Édipo pode ser compreendido como complexo da sexualidade e das relações inter e intrassubjetivas. O complexo prometéico que impulsionou a Humanidade não é redutível ao mito correspondente, enquanto o complexo de Édipo não pode ser subsumido ao mito de mesmo nome. O fogo é cauterização pasteuriana salvadora, canhão destruidor, sexo animal, guerra e paz. O Édipo, na sua complexidade, mostra o bebê na onipotência do um com a mãe, saindo para a fascinação narcísica do dois ainda com ela e caindo na realidade do três com a intromissão de um terceiro objeto que separa, configurado socialmente como função paterna.

Desta forma, ao se entender que a composição mítica do psiquismo edipiano tem relação direta igualmente com narcisismo, arrogância e onipotência, ver-se-á também que tal disposição mental se choca com saber e conhecimento. A outra vertente de leitura do mito iluminada por Bion mostra como Édipo ignora todos os avisos que, por intermédio de parábolas e metáforas, lhe faz o cego Tirésias. E assim, com a convicção de saber a verdade, caminha inexoravelmente para a tragédia. O desprezo pela realidade e a certeza grandiosa de possuir a verdade, geralmente, aproximam o pensamento da falsidade e até da mentira.

O longo percurso histórico da Ciência mistura-se com a mitologia e o preconceito, apesar de todos os esforços em busca da inalcançável entidade chamada Ciência exata. Desde Aristóteles, o ideal de alcançar a exatidão foi situado na constituição do método, cuja empeiria nortearia a lógica mediante a perfeita captação do mundo real pela sensorialidade dos cinco sentidos do homem. A pretensão de que uma hiperestrutura como o DNA ou a cartografia do genoma possa dar conta de todos os processos vitais é uma dessas persistentes ilusões cientificistas que matemáticos e físicos adoram abraçar. A seguinte citação de Chaui (2009, p.53) reporta-se ao assunto:

No entanto, no século XX, a Filosofia passou a mostrar que as ciências não
possuem princípios totalmente certos, seguros e rigorosos para as investigações,
que os resultados podem ser duvidosos e precários, e que, freqüentemente uma
ciência desconhece até onde pode ir e quando está entrando no campo de
investigação de uma outra.

Para confirmar com exatidão a inexatidão referida pela Filósofa, Heisenberg(1) assinala que: “é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula, isto é, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula, necessariamente, contém erros não menores que a constante de Planck.”

Deste modo, na enorme complexidade que a produção científica encerra, torna-se necessário escapar tanto da transciência quanto da onisciência, buscando um caminho, pelo qual logos e psique possam se harmonizar. A Filosofia, na qual a Ciência está sempre justaposta e sotoposta, acompanha desde seu nascimento a oscilação entre sujeito e objeto, interno e externo, empirismo e racionalismo. Essa lógica foi quebrada por Kant, ao denunciar ambas as posições como idealistas e propor a investigação das possiblidades do conhecimento e, portanto, do funcionamento da Razão.

A relação entre razão e ideia estabelecida por W. Bion como um dos elementos que possibilitam o desenvolvimento do pensamento e da linguagem está no próprio cerne do conceito kantiano de razão. No caso do filósofo de Konisberg, a razão é o instrumento que, articulando as categorias a priori do entendimento com as formas captadas pela sensibilidade do espaço e do tempo, pode estabelecer contato com a realidade e assim capturar ideias e produzir conceitos. A razão isoladamente é vazia e, portanto, incapaz de produzir ciência per se.

Desse modo, Kant atacava concomitantemente o inatismo e o empirismo e dava um grande passo para que Hegel pudesse fazer uma abordagem mais ampla do conceito de razão. O fato mais importante que separa os dois filósofos é situar a razão em posições diferentes, pois, enquanto para Kant a razão é pura subjetividade, para Hegel, esta faz parte da realidade histórica. Tal desenvolvimento é necessário, porque não há como compreender os limites da vida científica sem discutir questões filosóficas de método ao lado da compreensão do psiquismo que integra ao seu funcionamento os conceitos de razão, ideia, pensamento, linguagem e conhecimento. Por isso, Sandler (1997, p.25) diz com propriedade o seguinte:

O “pensar”, hoje em dia, após as contribuições da psicanálise, abarca aspectos
que vão além do mero raciocínio, compreendendo atenção, notação, memória
disponível, aprender da experiência, influência dos objetos introjetados,
consciência e influências do inconsciente. Por consciência, adoto a definição de
Freud: O órgão sensorial para apreensão da qualidade psíquica.

O uso da intuição vai assumindo importância fundamental neste entrecruzamento poroso da historicidade científica em busca de uma verdade sempre fugidia. Bergson expressava essa visão, ao dizer que realismo e idealismo sempre vão longe demais. Se a tão difícil aproximação à realidade objetiva acontece por meio de uma razão historicamente gerada, também é possível dizer que a faculdade de julgamento que lhe é conexa se encontra na intimidade do psiquismo. Aqui, Freud e Marx marcaram um encontro que é preciso caracterizar.

Assim, se para Marx a razão resulta do entrechoques de sujeitos históricos, para Freud a capacidade de estabelecer juízos de realidade se encontra na profundidade do psiquismo do homem. A importância central deste desenvolvimento está no fato de que não é possível afastar completamente do trabalho científico afetos e paixões, como também o desejo que deriva da pulsão. A existência de uma pulsão epistemofílica já fora apontada por Freud, assinalada por M. Klein e conceituada por W. Bion no contexto do desenvolvimento do pensamento. Não há como separar a curiosidade epistemofílica que se inicia na tenra infância das pulsões sexuais e agressivas. Desse modo, o filósofo Locke, citado por S. P. Roaunet (1990, p.23) já sintetizava a ideia: “[...] Locke se afasta do tema clássico da pertubatio animi, e se aproxima da concepção, já defendida por Hobbes, de que o desejo é parte integrante do processo de conhecimento”.

Portanto, desde Descartes, se procura um método capaz de tornar a episteme científica livre de pertubações afetivas e ou distorções perceptuais do observador para que o ideal da ciência exata seja possível. Isso equivaleria ir ao encontro do ideal galileano, no qual o livro do universo seria escrito em linguagem matemática, ao mesmo tempo que a Razão estaria purificada de todo tipo de distorções perceptuais ou dúvidas inconsequentes. Desse modo, surgiria a ideia clara e distinta com a qual o sujeito solipsista da Ciência chegaria ao saber hegeliano absoluto. Os filósofos e os cientistas vão assim ultrapassando e descartando uns aos outros, mas deixando atrás de si filtros porosos que permitem ao sistema de vasos comunicantes do conhecimento humano uma infiltração invisível na constituição de cada novo saber. O idealismo matematizante fica para trás mas não a Ciência matemática com a ajuda da qual novos saberes se configuram. É isso que Sandler (1997, p.239) exprime:

Bertrand Russell demonstrou que os vários paradoxos rompem os alicerces da
lógica, e impedem qualquer tentativa de construir matemática sobre qualquer
lógica formal. Ele aprofundou o questionamento das pretensões dos matemáticos da
época, justamente quando se pesquisava mais a fundo a natureza e a
confiabilidade das provas e validações matemáticas.


O problema da maioria das epistemologias criadas pela Filosofia é imaginar o conhecimento como produto de uma mente individual isolada, sem levar em conta o fato de que Razão e saber não se desligam da realidade sócio-histórica. Marx mostrou isso nos Manuscristos Econômico-Filosóficos, de 1844, na Ideologia Alemã e no O Capital, de 1867. O marxismo, entretanto, não tinha as ferramentas hermenêutico-linguísticas e da teoria comunicacional que somente tomariam vulto na segunda metade do século XX. Além disso, o descentramento da Razão promovido pela Psicanálise mostrou a necessidade de estabelecer diálogo com o outro do inconsciente. Na medida mesmo em que a práxis científica se distancia da fantasia de perfectibilidade, esbarra na difícil compreensão posta pelo diálogo hermenêutico, enquanto o inconsciente lhe diz que não pode mais fazer ciência sem ouvi-lo.

O inconsciente, desde quando fez sua aparição para Freud, não deixou mais de incomodar profundamente os filósofos, os matemáticos, os lógicos e todos aqueles que imaginavam poder separar Paixão e Razão. Dessa maneira, os desenvolvimentos teóricos, desde então, ficam, por assim dizer, com um “olho no peixe e outro no gato”. Se como dizia Gödell não há nenhuma prova matemática indiscutível, o sorrateiro gato do inconsciente assegura que nenhuma prova laboratorial está isenta de afeto, seja o ódio ou o amor. Faço, por oportuno, uma pequena provocação ao cientificismo, indagando se algum dia seria possível inventar um aparelho que possa ser chamado “amorômetro” ou “odiômetro”, até porque tais componentes psíquicos não representam quantidades mas qualidades inscritas fora da sensorialidade. Isso certamente não desqualifica o trabalho do epistemólogo ou do lógico, mas situa o inconsciente individual e grupal no plano das evidências e incertezas científicas.

Além disso, o eixo hermenêutico-linguístico situa a questão da comunicação intersubjetiva como parte integrante do trabalho científico, cujo método já deixa na sua esteira Platão, Aristóteles, Descartes, Kant em busca da cientificidade possível na atualidade. Assim, transita-se da perspectiva epistemológica centrada num sujeito isolado para uma visão do conhecimento, na qual o saber é mediado pela linguagem que só existe dentro de uma relação intersubjetiva. Neste intercruzamento, está situada a moderna Psicanálise das relações e dos vínculos, que são elementos básicos na produção do pensamento.

O pensamento, como o conhecimento, não podem prescindir de afetos e emoções para sua produção. Quando lógicos e matemáticos tentam negar esse fato, colaboram para estabelecer desvios e confusões ainda maiores na produção do saber. É disso que fala Chuster (1999, p.74): “Quando a emoção é atacada o que predomina de forma exagerada são os vínculos que parecem lógicos, quase matemáticos, mas que jamais são sensatos do ponto de vista emocional”. E ainda: “A piscanálise em Bion resgata o pensamento que começa com o onírico, que se abre inicialmente pelas imagens, para só depois se conceitualizar como linguagem”.

Dessa perspectiva, não há como separar pensamento e ideia que por meio da linguagem formarão a base da comunicação entre os seres humanos. A existência de preconcepções anteriores à formação de um sistema conceitual na criança formulada por W. Bion, de certa maneira, aponta na mesma direção do conceito vazio de Kant e da gramática universal de Chomsky. Kant dizia que “intuições sem conceitos são cegos e conceitos sem intuições são vazios”, portanto, situava a essência da experiência emocional no centro da produção do saber. A Psicanálise dará a base científica desta compreensão ao propor, desde Freud, a existência de uma pulsão epistemofílica que M. Klein assumirá na sua Teoria das Relações entre Sujeitos, tanto no exterior quanto na intimidade do psiquismo, enquanto Bion expandirá a ideia, estabelecendo que não existe conhecimento sem sua articulação com afetos de amor e ódio.

O marxismo compreenderá a produção do saber como resultado da razão histórica. A historicidade do processo não se opõe, no meu entendimento, à perspectiva ora exposta, pois os sujeitos históricos o são na multiformidade da intersubjetividade. Dessa maneira, a produção do conhecimento é tanto individual quanto coletiva, comportando uma extraordinária rede de elementos que seria impossível, mesmo para o computador mais sofisticado, enumerar e correlacionar com critérios estatísticos, visando a uma configuração matemática do saber. A complexidade do processo de conhecer como pressuposto da ciência tem um ingrediente chamado prestígio, que participa simultaneamente de dois níveis de funcionamento humano: o psicológico e o sociocultural. Isso expressa quase imediatamente a necessidade de situar as organizações narcísico-paranóides individuais e grupais como igualmente a relação entre poder e saber que Foucault teorizou, levando a certo exagero reducionista.

O fato é que essa reflexão situa a teorização psicanalítica de W. Bion também no centro deste debate. Para Bion, o desejo arrogante de conhecer e saber pode cegar o homem, tanto quanto a pulsão destrutiva. A exaltação passional de se proclamar sabedor da verdade é o núcleo de um ataque agressivo contra a verdadeira busca do conhecimento. O nazismo, com seus teóricos políticos e filósofos, é talvez o maior exemplo deste saber arrogante que implica um não-saber destruidor. Os teóricos que, consciente ou inconscientemente, desembocaram e deram suporte à Kulturkampf, como Chamberlain, Heidegger, Nietzsche e Karl Schmitt, são exemplos das limitadas fronteiras entre criatividade científica e antipensamento arrogante destrutivo. Não se pode desconsiderar a grande contribuição que por outro lado esses teóricos deram ao saber humano, mas, contraditoriamente, abriram caminho para um narcisismo político-paranóico-guerreiro sem precedentes na história.

Freud, no seu famoso texto de 1921, Psicologia de Grupo e Análise do Ego, chamou a atenção para o narcisismo de pequena diferença que acomete coletividades e nações. Em seu texto, Freud exemplifica, dizendo que os alemães do norte depreciam os alemães do sul, os espanhóis desqualificam os portugueses e, nessa interminável lista, certamente entra o ódio antissemita e racial. O conceito freudiano fica muito próximo da judicialização da política expressa por Karl Schmitt, no seu livro O Conceito do Político, no qual estabelece que as relações internacionais são ditadas pela fórmula amizade↔inimizade. Certamente essa relação, tanto da perspectiva psicanalítica quanto da jurídico-política, está a um passo da paranóia.

Portanto, se todo saber necessariamente está relacionado a uma busca de poder, seja no artefato tecnológico ou no construto humanístico, a consequência lógica deste fato é que o prestígio alcançado implique incremento da arrogância, principalmente na Ciência política. Como expressei há pouco, seguindo W. Bion, a episteme resultante é sempre narcísica, portanto, descompromissada em relação ao outro semelhante. Aliás, nesse sentido, o outro, sartreanamente falando, é o Diabo. Se os ideais de justiça, bem-estar social e liberdade que a Filosofia política proclama não estivessem submetidos à sua práxis, diria que o conceito de paranóia nesse domínio seria desnecessário. Isso certamente, no entanto, implicaria a negação da realidade histórica. O saber político desliza insensivelmente para a formulação da sua teoria em cima da concepção da guerra, como em Clausewitz, Gramsci e Schmitt.

Destarte, se está no núcleo paranóico do saber político que Elias Canetti tão bem tematizou no seu famoso livro Massa e Poder, mostrando como a batalha política está na intimidade delirante de um dos mais famosos casos de Freud, o presidente Schreber. Com efeito, digo que desde Maquiavel e Hobbes a questão jurídico-política da guerra caminha ao lado do desejo de posse nas várias dimensões do existir humano. Diz Rouanet (1990, p.22), a propósito de Hobbes: “A paixão que produz diferenças mais acentuadas na capacidade mental dos homens é o desejo de poder, em sua forma pura ou em suas variantes, como o desejo de obter a riqueza, a honra ou o conhecimento”. Assim, a busca paranóica do conhecimento, no limite, se encontra com a procura compulsiva pelo ouro. Isso torna o mercado capitalista um suposto saber que contamina a Ciência e destrói a Humanidade.

Minhas senhoras e meus senhores, sou grato à comunidade acadêmica da Universidade Federal do Ceará e, muito especialmente, ao seu Conselho Universitário, que me conferem nesta oportunidade o honroso título de “Doutor Honoris Causa”. Também agradeço especialmente aos meus queridos amigos, professores e pesquisadores, Manuel Domingos Neto e Elza Maria Franco Braga. A minha retribuição está contida neste esboço de ensaio que, acredito, é um libelo contra aquilo que Bion chamou a produção estúpida do saber ou saber sem afeto, contrastando-a com a verdadeira sabedoria que privilegia o sentimento de humanidade.

_________________________________

(1)Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Werner_Karl_Heisenberg

REFERÊNCIAS

AHUMADA, Jorge. Descobertas e refutações: a psicanálise clínica como lógica da indagação. In: Livro Anual de Psicanálise. Tomo XIII. 1997. pp. 258-259.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2009.

CHUSTER, Arnaldo e outros. W. R. Bion - Novas Leituras. A psicanálise: dos modelos científicos aos pricípios éticos-estéticos. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

ROUANET, Sergio Paulo. A razão cativa: as ilusões da consciência - de Platão a Freud. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

SANDLER, Paulo Cesar. A apreensão da realidade psíquica. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

1 comentário em “Limites da Razão Científica”

  • Gabriela M   17 de fevereiro de 2013 17:09

    Ótimo texto! Parabéns!

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